quarta-feira, 15 de abril de 2009

Talvez mais uma, talvez a última.

não queria ser eu a dizer isto, mas ao mesmo tempo não desejo que outras bocas pronunciem o que diz respeito só a mim. não quero que sejam outras bocas a lhe dizer o que inflama esse peito, não quero que sejam outras bocas a lhe dizer que olhos choram, não quero que sejam outras bocas a lhe comunicar: desisti.


desisti de achar que amanhã vai ser um dia mais bonito, que alguma coisa individual pode mudar ai, e que o sorriso pode passar a ter gosto de amanhecer. desisti de tentar encontrar na alma uma essência que nem tem mais cheiro de cristal; ou as vezes o aroma ainda exista, mas está em tantos pedaços quanto esse cristal.......ou quanto a alma. desisti de balançar as mãos acompanhadas, sem medo de que as paredes ouçam até o som que a brisa do balanço deste nosso nó faz. desisti de tenta fazer sorrir olhos que só querem chorar. desisti de tentar fazer enxergar um cego. desisti de levantar alguém que nem se conhece. desisti de acordar e esperar um bom dia, de sair e querer escutar um 'não vai' e de voltar e continuar tudo com estava. desisti de me conformar com tudo como estava. desisti de me conformar. desistir de persistir. desisti de dizer que não desistiria. desisti de buscar o caminho difícil. desisti de achar que era errado desistir, até pq já vi desistirem tantas vezes, o que me custa desistir um pouco?

desisti de encarar os fatos como incertos, de encontrar neles uma dúvida, de ter esperança. desisti de ver o que queria ver e passei a ver apenas o que é. desisti de fazer de conta. desisti de tentar não falhar, de ser humana, de corrigir erros e até de acertar. desisti de tentar juntar pedaços da foto rasgada, afinal ela já foi rasgada. desisti da inocência. desisti da mudança. desisti da covardia. desisti do desespero, das falhas, da perfeição. eu apenas, desisti.
desisti de esperar um abraço. desisti de querer. desisti de sentir saudade. desisti de sentir.


que alguns chamem minha desistência de covardia.
que alguns chamem minha desistência de fraqueza.
que alguns chamem minha desistência de desabafo.
que outros a chamem de mais uma.

desisti também de alguns...
e de outros.
R.R.
18/04/09

segunda-feira, 13 de abril de 2009

e eu que aprendi a chorar menos, a ser menos sensível e a deixar de sentir dor. tantas vezes disse não ser capaz de fazer auto-reconhecimento, e nunca houve alguém que me desse razão.

era menina de choro fácil, de coração mole, de dores frágeis e de inconstância sentimental. era sonho em essência, era certeza de alcançar o desejado. era menina capaz de correr atrás de estrela cadente. era: verbo ser,2ª conjugação, na primeira pessoa do singular do pretérito perfeito. simplesmente era, e isso era a satisfação por completo.

parece que a gente cresce e se amargura. pra uns pode parecer escolha, pra outros nem tanto. o fato é que a vida vai levando a gente, e quando a gente se vê já não sabe se é quem os outros acreditam que nós somos, ou se somos quem desejam que sejamos. e talvez nem possamos ser mais quem queremos ser. a gente vai deixando de ser a gente, deixando de ser gente, e acaba se transformando naquele bando de qualquer gente que antes achava qualquer coisa a nosso respeito. no fim a gente acaba nem sabendo quem quer ser, ou se, de fato, somos ou deixamos de ser.

talvez não tenha ainda um choro difícil, mas aprendeu como sufocá-lo. talvez sinta vontade de chorar, mas as lágrimas lhe faltem. talvez o desabafo daquele peito ardido que antes saia pelo soluço tenha se transformado num silêncio calado. e talvez porque desaprendeu a chorar vive triste a sofrer. o coração já não sofre com pena de si mesmo, e menos ainda pena alheia. coração metade pedra, metade gente. talvez a dor tenha se feito pedra...e o coração mais duro ainda. talvez a essência ainda exista, mas deixou de ser essência. sonho deixou de ser vital e passou a ser normal. as certezas são mais incertas do que nunca e corres atrás de estrelas hoje é apenas coisa de menina.

era..........um pretérito que talvez nem seja tão perfeito assim.

R.R.
13/04/09

quinta-feira, 2 de abril de 2009

tempo

saudade de um jeito de não fazer nada. saudade de um jeito bobo de brincar. saudade de um filme horrivel. saudade de um ponto fraco. saudade de observar enquanto passava os olhos pelas letras. saudade do sorriso timido quando se viu observado. saudade daquele elogio. saudade daquela inocencia. saudade da confiança. saudade do abraço dizendo aquilo que a boca calava. saudade do choro angustiado. saudade do choro sem graça. saudade do colo aconchegante. saudade do carinho bom. saudade do soninho bom. saudade de dizer boa noite. saudade de andar e mãos dadas. saudade de um amor diferente. saudade dos sonhos. saudade das palavras doces. saudade das danças. saudade de flutuar nos braços. saudade de ouvir falar da estrela cadente. saudade dos segredos. saudade do que a madrugada fez revelar. saudade do beijo. saudade dos planos compartilhados. saudade de um companheirismo sem limite. saudade do cavalheirismo. saudade do cheiro bom. saudade do acolhimento. saudade das pernas bambas. saudade de sentir um aperto de mão. saudade de tirar o peso das costas. saudade de um coração quente. saudade de uma blusa quente. saudade do menino da blusa vermelha.

saudade,

R.R.
02/04/09

domingo, 29 de março de 2009

ESPELHO

já que estou aqui, diante de você, e olhando nos meus próprios olhos, vim aqui para me confessar. pra poder te explicar de onde vem tantas lágrimas, tantos tormentos, momentos. vim aqui me confessar porque já não consigo mais olhar dentro dos meus próprios olhos e me ver tão triste.

o nome do meu caminho vem sendo decepção. parece que o raio de sol que entrava pela janela logo cedo se transformou em gotas de chuva, que batem nessa janela parecendo que querem quebra-la. e vão! parece que minha vontade de me entregar a vida foi levada pelo vento como a poeira da minha velha escrivaninha. decepcionei-me ao procurar o lado diferente que eu sempre achei que todas as pessoas tinham. quando procurei naquelas que desgostava, acabei me sujando. e quando fui até aquelas que eu pensava conhecer, acabei chorando.

olhei nos meus olhos e não me vi mais criança...não me vi mais brincando de sorrir pra vida, de dar cambalhotas, nem de dançar na chuva, de gritar ou rir sem nem precisar de motivo. descobri um mundo tão errado, tão torto, que nem na minha velha crença de que é preciso errar sempre eu sei se acredito. o que parece é que eu consegui ensinar isso às pessoas, mas elas aprenderam do jeito que elas queriam, e não do jeito que podia fazê-las acertar. erros inconsequentes machucam as pessoas. erros sinceros crescem a gente. vejo tanto preto e branco ultimamente que até nos abraços que pintavam vida eu deixei de ver cores...alguém tomou aquelas cores de mim e eu sequer sei a razão.

quando olho nos meus olhos vejo que a vela que sempre esteve acesa aqui dentro conserva um fogo quase frio, vejo que a chama que eu acendi pensando que podia mudar a vida foi apagada. as pessoas sopram forte e a gente nem percebe. não fazer a diferença, ou não ser a diferença, dói. o meu olhar me diz que tanta mentira chega a tirar o fôlego. chega a dar vontade de olhar mais de perto o bater das ondas.

o meu olhar olha para as estrelas e ao invés de ter vontade de correr até elas, apenas chora.

fica cada dia mais difícil olhar dentro dos seus olhos, ou de mim, ou de você.

R.R.
29/03/09

segunda-feira, 9 de março de 2009

Um jogo a sós

os que me viram devem ter pensado que eu estava em um momento de insanidade ou qualquer coisa assim. alguns outros poucos sentiriam pena. e aqueles outros alguns simplesmente diriam que era algum ato sem sentido de uma desocupada.

peguei a cadeira velha, de palha, da perna torta e a coloquei bem no centro do campo vazio. a grama umidecida pelas gotinhas daquela chuvinha fina e gelada que caia. chuva fina e noite fria. do lado de fora do alambrado abraçado pela ferrugem, apenas escuridão, escuridão, escuridão e escuridão. no seu interior o que me fazia conseguir enxergar eram aqueles gigantescos holofotes, e todos direcionados para onde me sentei.

mergulhei meus pés, até então quentinhos, naquele mar verde e senti uma cosquinha por entre os meus dedos. aproximei meus joelhos, recostei minhas mãos sobre as borda da cadeira e inclinei-me pra frente pra poder observar melhor o mergulho. enquanto os observava brincar e sorrir daquela sensação, lembrei-me de que havia tempos que eu e as estrelas não conversava-mos. levantei minha cabeça rapidamente para chamá-las mas, como já era de se esperar, meu jeito desastrado foi com impulso demais e eu e a cadeira agora estávamos de pernas pro ar.

coloquei as mãos no rosto, me envergonhei e ri da minha própria falta de desenvoltura. ah, que maravilha foi quando essas mãos resolveram deixar meu rosto e gritar as estrelas.
deitada ao lado da cadeira, que ainda estava de pernas pro ar, me emocionei. não sei se foi a beleza delas, se foi a gentileza em atender meu chamado, ou se foi só um efeito chamado saudade. levei minhas mãos até o peito e apertei-as contra ele como se assim elas fossem conseguir chegar até a falta e arrancá-la de mim. infelizmente por mais força que eu fizesse, ela não queria sair de mim.

quando vi que por mais que meu grito fosse forte elas não se aproximariam de mim, deixei de olhar pro teto e virei meu olhar para a escuridão depois da ferrugem. admirando-a percebi que não éramos tão diferentes quanto eu pensava. eu dotada de tanta pequenez, ela tomando conta de uma imensidão. ela feita de tons sombrios e eu de pele tão clara. eu na minha voz alta, fina, escandalosa, ela no seu silêncio e mistério. mas apesar de tanta diferença, dentro de mim eu era tão escuridão quanto ela. imensa, pintada em tons sombrios, silenciosa e misteriosa.

já não estava mais rodeada de escuridão, agora eram espelhos. e um dos meus espelhos foi ofuscado por um brilho estranho que enquanto eu secava o olhos me distraiu. o brilho no teto me chamou e de nada adiantou tentar secar aquela água que saia dos olhos, porque ela insistia em molhar de novo esse rosto amedrontado. olhei aquele brilho intenso lá em cima e quis voar até ele. senti o vento dançar com castanho cumprido dos meus cabelos e o choro ruir pela lateral dos meus olhos. comecei a escutar aquela música que parecia não ser nada além de uma canção. dizia pra que eu me entregasse a suavidade de tudo aquilo, pra que tentasse encontrar uma lado diferente. me perguntava por que havia tanta vida sufocada abaixo das estrelas. a canção pedia pra eu me lembrar do dia em que vi esse brilho pela primeira vez, quando demo-nos um laço pela primeira vez e de como a vida mudou depois disso.

me levantei e me convidei para dançar enquanto ele cantava pra mim. dancei por tamanha imensidão. dei um nó com os braços em volta do meu próprio corpo e chorei de saudade.

parei com o tango, sentei-me, limpei as lágrimas mais uma vez e tomei dele o microfone. pelo menos por um bom tempo não haverá mais brilho e menos ainda uma canção pra ser dançada...

R.R.
09/03/09