Nem que eu embarcasse no mais rápido dos jatos. Nem que eu tivesse uma passagem para o trem mais veloz do mundo. Nem que o mais ágil dos carros estivesse agora a minha disposição. Nem que eu soubesse a fórmula mágica de encurtar distâncias.......nem mesmo assim eu conseguiria me alcançar.
Aquela pergunta me corroía por dentro, mas não por si só. A angústia verdadeira estava em não conseguir respondê-la. "Onde foi que você se perdeu?". Pensava em mil e sei lá quantas maneiras, mas.....onde foi que me perdi? O que mais me consumida não era nem o próprio fato de estar perdida, e sim o de ter me perdido de mim mesma e não saber como ou onde me encontrar.
As vezes parecia que eu estava sonhando, e não precisava nem dormir ou sequer fechar os olhos. Eu estava aqui, só, e conseguia me ver lá longe- distante. Eu me observava conversando com as pessoas, rindo e até contando piadas sem destino. Eu me via com um gargalhar tão bem acompanhado no rosto, e nos olhos, que me perguntava: em que parte de mim está tudo isso que eu não sinto?
Certo dia me sentei, sozinha, naquela mesa de canto do nosso bar preferido, sempre abafada pela fumaça vinda do cigarro dos bohemios. Pedi uma taça do nosso vinho preferido e ali fiquei apenas assistindo a cena da peça de minha autoria. O ato era aquele em que eu era a atriz, interpretando o papel de protagonista (no caso eu mesma), acompanhada de meus amigos, inimigos, amores e dissabores. Confesso que nesse dia aplaudi-me de pé. Conversei com todos que me cercavam. Sorri magnifica e encantadoramente para meu amor a direita. Acariciei dissimuladamente a face daquele dissabor a esquerda, como se por ele eu sentisse metade da vontade que se apoderava de mim pelo meu amor direito. Me vi parafrasear sobre bossa nova, política, mentiras e algumas impuras verdades. Falei até sobre tudo, ou quase tudo, que me atormentava como se não me afetasse. E se lhe interessa nem com olhos chorosos fiquei- enquanto o meu desejo era me afogar naquela taça de lágrimas. Pq acabei me aplaudindo de pé? Nem inimigos, nem amigos, nem dissabores, nem amores, ninguém. Ninguém percebeu que eu já nem estava mais lá, se é que um dia estive.
Alguns outros tolos disseram-me ainda: "como você está linda". E eu naturalmente sorri e agradeci, mesmo desejando apenas que as cortinas se fechassem, a luz se apagasse e eu pudesse finalmente me afogar.
Talvez no dia em que as cortinas se fecharem eu tenha tempo de marcar aquele encontro comigo mesma.
...e me afogar em paz!
R.R.
25/02/2009
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
a luz de velas
O escuro se desfez quando a feia moça ascendeu as velas. bem a nossa frente ela riscou o fósforo e deu luz aquelas magricelas brancas velas. direcionou seu olhar a nós e quando percebeu do que se tratava, logo se retirou. não lhe demos nem tempo para que se fizesse ausente dali.
colocou sua mão sobre a minha, e mais parecia coloca-la sobre o meu coração, tamanho foi o seu disparo. dedos que se enlaçaram, dedos que se contornaram, dedos que se afastaram, dedos que se acariciaram, dedos que se beijaram, dedos que se afastaram. como jamais havia sentido, algo me causou uma epifania sem tamanho. percebi que não era mais tão só. sinceramente não sou capaz de dizer nem quem, nem o que me tocou tanto, sei apenas que senti-me. aliás, acho que identifico aquilo como segurança, porque tudo que me amedrontava, ao toque de uma mão, desfez-se.
eu pensava ser capaz de identificar cada milímetro do que sou feita[emoção], mas há momentos em que eu perco essa certeza. certas coisas que eu faço, ou que fazem, ou que o mundo faz, me fazem ter a convicção de que convicções são apenas convicções. da mesma forma que você as tem, pode deixar de tê-las, ou de inventá-las. se quer mesmo saber, nem sou muito criativa. quando aquelas mãos se tocaram, minhas convicções não queriam mais saber de mim.
disse que eles enlaçaram-se, mas já nem sei mais, vejo que aquilo estava mais para um nó cego, do que para um laço bonito. aliás, nome que encaixou-se perfeitamente: nó cego.
pena é que alguém soprou as velas, e tudo escureceu.
R.R.
10/02/09
colocou sua mão sobre a minha, e mais parecia coloca-la sobre o meu coração, tamanho foi o seu disparo. dedos que se enlaçaram, dedos que se contornaram, dedos que se afastaram, dedos que se acariciaram, dedos que se beijaram, dedos que se afastaram. como jamais havia sentido, algo me causou uma epifania sem tamanho. percebi que não era mais tão só. sinceramente não sou capaz de dizer nem quem, nem o que me tocou tanto, sei apenas que senti-me. aliás, acho que identifico aquilo como segurança, porque tudo que me amedrontava, ao toque de uma mão, desfez-se.
eu pensava ser capaz de identificar cada milímetro do que sou feita[emoção], mas há momentos em que eu perco essa certeza. certas coisas que eu faço, ou que fazem, ou que o mundo faz, me fazem ter a convicção de que convicções são apenas convicções. da mesma forma que você as tem, pode deixar de tê-las, ou de inventá-las. se quer mesmo saber, nem sou muito criativa. quando aquelas mãos se tocaram, minhas convicções não queriam mais saber de mim.
disse que eles enlaçaram-se, mas já nem sei mais, vejo que aquilo estava mais para um nó cego, do que para um laço bonito. aliás, nome que encaixou-se perfeitamente: nó cego.
pena é que alguém soprou as velas, e tudo escureceu.
R.R.
10/02/09
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Entre quatro paredes
a questão não são as coisas que acontecem, são as coisas que sinto. as vezes olho para aquela pagina em branco e imagino o que faria ali. poderia ser um desenho cheio de cores, arco-íris, um belo sol amarelo e um riacho azul. poderia desenhar apenas olhos lacrimejando em tons de cinza, branco e preto. poderia apenas pegar a pena quebrada e escrever-lhe.
ao longo do tempo em que meus pensamentos iam se atropelando, a pena cansada ia contornando as letras e delineando meus dissabores. ao longo do papel branco ela contou sobre o dia em que me senti só. sobre o dia que me senti tão só ao ponto de conversar com as paredes, pelo menos elas não tinham o poder de me apunhalar, e ainda aproveitei o fato de dizerem por ai que elas tem ouvidos. e se você quer mesmo saber elas são boas ouvintes.
contei para a parede a minha frente, cor de chuva, sobre meu choro. disse-lhe que meu soluço era de dor. o pranto devia-se a saudade, as alegrias não vividas, a melancolia mal [e talvez nunca] resolvida. falei para a parede cor de chuva que da mesma tinta que ela era feita, pintaram meu rosto, e da mesma forma que ela parecia triste, esta face apenas se enchia de dor. a vezes parecia que sua cor já dizia que ela não chovia, mas chorava. esse pranto incomodo, daqueles que parece que nunca te deixará, que o tempo nunca vai curar, que nunca passará. e eu, um poço fundo de amargura me tornei. expliquei a ela que nem sempre sentir-se só implica não ter ninguém. ela nem mesmo se manifestou contra ou a favor de nada daquilo, e mais uma vez me vi só.
contei para a parede cor de céu que nem todos os dias são de sol e nem todas as noites são sombrias. para a parede cor de céu disse sobre meus sonhos, meus tão profundos e ilusórios sonhos. e depois de descobrir que não passavam de (des)ilusões, mudei a cor da parede cor de céu para parede cor de olho quando chora. mudei a cor de uma parede muda, e o olho chorou, ou se lembrou, ou torturou, ou saudoso ficou, e chorou.
contei para a parede cor de noite sobre as minhas esperanças, vontades, desejos. ela não falava mas refletia através de si o que meu corpo queria. meu corpo espera por um estado de êxtase tão intenso que chega a acreditar em mágica. minhas mãos com esperança de encontrar um sorriso pra tocar. os braços com esperanças de um corpo para enlaçar e dar um nó cego. a boca sente falta daquilo que remove o batom cor de paixão. contei pra parede cor de noite que minhas (des)esperanças agora me deixavam desesperada, e sombria como a mais fria e insólita noite de inverno. contei pra parede cor de noite que por mais que eu quisesse, nem por mais uma noite haveria esperança.
contei para a parede cor de sol sobre meu sorriso. falei pra ela sobre aqueles que me fizeram (des)sorrir, gargalhar, imaginar, pular, gritar e chorar. contei pra minha parede cor de sol que dentro de mim havia uma luz que nem eu mesma era capaz de entender. contei pra mim mesma que gente com cor daquela outra parede tem braços grandes que resolveram me enlaçar. braços tão negros que fizeram de um coração que queria salvar o mundo, um coração que não era mais capaz de salvar sequer a si mesmo. mãos tão sombrias que tiraram o poder de acreditar. e a fé se desfez. Deus é inquestionável. contei para a parede cor de sol que minha fé morreu nos homens.
quando me vi nem mais paredes havia e restava-me apenas chão e teto. céu ou inferno. nem me via mais, apenas lembro-me de quando desfaleci no chão...
R.R.
27/01/09
ao longo do tempo em que meus pensamentos iam se atropelando, a pena cansada ia contornando as letras e delineando meus dissabores. ao longo do papel branco ela contou sobre o dia em que me senti só. sobre o dia que me senti tão só ao ponto de conversar com as paredes, pelo menos elas não tinham o poder de me apunhalar, e ainda aproveitei o fato de dizerem por ai que elas tem ouvidos. e se você quer mesmo saber elas são boas ouvintes.
contei para a parede a minha frente, cor de chuva, sobre meu choro. disse-lhe que meu soluço era de dor. o pranto devia-se a saudade, as alegrias não vividas, a melancolia mal [e talvez nunca] resolvida. falei para a parede cor de chuva que da mesma tinta que ela era feita, pintaram meu rosto, e da mesma forma que ela parecia triste, esta face apenas se enchia de dor. a vezes parecia que sua cor já dizia que ela não chovia, mas chorava. esse pranto incomodo, daqueles que parece que nunca te deixará, que o tempo nunca vai curar, que nunca passará. e eu, um poço fundo de amargura me tornei. expliquei a ela que nem sempre sentir-se só implica não ter ninguém. ela nem mesmo se manifestou contra ou a favor de nada daquilo, e mais uma vez me vi só.
contei para a parede cor de céu que nem todos os dias são de sol e nem todas as noites são sombrias. para a parede cor de céu disse sobre meus sonhos, meus tão profundos e ilusórios sonhos. e depois de descobrir que não passavam de (des)ilusões, mudei a cor da parede cor de céu para parede cor de olho quando chora. mudei a cor de uma parede muda, e o olho chorou, ou se lembrou, ou torturou, ou saudoso ficou, e chorou.
contei para a parede cor de noite sobre as minhas esperanças, vontades, desejos. ela não falava mas refletia através de si o que meu corpo queria. meu corpo espera por um estado de êxtase tão intenso que chega a acreditar em mágica. minhas mãos com esperança de encontrar um sorriso pra tocar. os braços com esperanças de um corpo para enlaçar e dar um nó cego. a boca sente falta daquilo que remove o batom cor de paixão. contei pra parede cor de noite que minhas (des)esperanças agora me deixavam desesperada, e sombria como a mais fria e insólita noite de inverno. contei pra parede cor de noite que por mais que eu quisesse, nem por mais uma noite haveria esperança.
contei para a parede cor de sol sobre meu sorriso. falei pra ela sobre aqueles que me fizeram (des)sorrir, gargalhar, imaginar, pular, gritar e chorar. contei pra minha parede cor de sol que dentro de mim havia uma luz que nem eu mesma era capaz de entender. contei pra mim mesma que gente com cor daquela outra parede tem braços grandes que resolveram me enlaçar. braços tão negros que fizeram de um coração que queria salvar o mundo, um coração que não era mais capaz de salvar sequer a si mesmo. mãos tão sombrias que tiraram o poder de acreditar. e a fé se desfez. Deus é inquestionável. contei para a parede cor de sol que minha fé morreu nos homens.
quando me vi nem mais paredes havia e restava-me apenas chão e teto. céu ou inferno. nem me via mais, apenas lembro-me de quando desfaleci no chão...
R.R.
27/01/09
domingo, 18 de janeiro de 2009
Pequenos negros olhos
estava ela ali, deitada, coberta, respirando linda e calmamente.
eu, na ponta de cá da cama, apenas observava sua magnitude. observava seu sono, leve e ao mesmo tempo cansado. perguntei-me o que se passa ali, quais seriam seus pensamentos, suas vontades, desejos e segredos. queria eu ter a solução para salva-la do seu próprio mundo escuro. queria eu ser capaz de ensina-la a sonhar acordada.
enquanto a olhava percebi que a preferia dormindo; assim não sairiam mais gritos daqueles lindos lábios, não escorreriam lágrimas daqueles negros olhos e eu não sentiria metade da dor que me causa quando acorda. enquanto a olhava percebi que a preferia naquele sono profundo, assim era ainda mais fácil admira-la.
enquanto ela repousava parecia-me descansada, calma e até mesmo sublime. ali eu via serenidade; serenidade essa que eu jamais consegui encontrar quando seus pequenos olhos se abriam e passavam a me observar. aliás, talvez este seja mais um motivo de quere-la adormecida: aqueles tristes olhos não me observarão, e se assim for, não criticarão, não terão chance de humilhar, gritar, escandalizar. se aqueles tristes olhos não se abrirem agora, a amargura daquele coração não me observará, e eu poderei continuar a ama-la. jamais desejo que aqueles negros deixem de despertar pra sempre, apenas hoje, prefiro que eles repousem.
olhos negros fechados, é a solução que tenho para ainda ser capaz de ama-la.
R.R.
18/01/09
eu, na ponta de cá da cama, apenas observava sua magnitude. observava seu sono, leve e ao mesmo tempo cansado. perguntei-me o que se passa ali, quais seriam seus pensamentos, suas vontades, desejos e segredos. queria eu ter a solução para salva-la do seu próprio mundo escuro. queria eu ser capaz de ensina-la a sonhar acordada.
enquanto a olhava percebi que a preferia dormindo; assim não sairiam mais gritos daqueles lindos lábios, não escorreriam lágrimas daqueles negros olhos e eu não sentiria metade da dor que me causa quando acorda. enquanto a olhava percebi que a preferia naquele sono profundo, assim era ainda mais fácil admira-la.
enquanto ela repousava parecia-me descansada, calma e até mesmo sublime. ali eu via serenidade; serenidade essa que eu jamais consegui encontrar quando seus pequenos olhos se abriam e passavam a me observar. aliás, talvez este seja mais um motivo de quere-la adormecida: aqueles tristes olhos não me observarão, e se assim for, não criticarão, não terão chance de humilhar, gritar, escandalizar. se aqueles tristes olhos não se abrirem agora, a amargura daquele coração não me observará, e eu poderei continuar a ama-la. jamais desejo que aqueles negros deixem de despertar pra sempre, apenas hoje, prefiro que eles repousem.
olhos negros fechados, é a solução que tenho para ainda ser capaz de ama-la.
R.R.
18/01/09
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